quinta-feira, 9 de agosto de 2012

De um povo heroico

Cláudio trabalhava fora desde os onze anos. Perdera o pai ainda novo, e não teve escolha: tornou-se o homem da casa. O menino estudioso e dedicado ajudou a criar os seus seis irmãos. Aos dezessete, acordava às quatro, preparava o café da manhã da casa (um pão duro, com manteiga. E água. E só.) e pegava o ônibus das cinco. Ia à escola e, de lá, para a oficina mecânica de Seu Zé, onde ficava até tarde.
Seguindo, sem se desviar, pelo caminho no meio das pedras, o rapaz tinha um objetivo na vida: Formar-se em medicina e dar uma vida digna à família, que sobrevivia ao dia-a-dia com muita dificuldade. E ele se perguntava: "De quais filhos deste solo a pátria amada é mãe gentil?". A igualdade conquistada em braços fortes é válida para quem? Cláudio conhecia um lado terrível da realidade brasileira, para qual muitas pessoas fechavam os olhos. Ele convivia com um povo heroico que carece de tudo. Saneamento básico, educação e saúde de qualidade, transporte público eficaz, segurança.
O que o revoltava era ver que enquanto alguns desfrutavam da paz, em suas casas luxuosas, ao som do mar e à luz do céu profundo; outros tantos viviam com medo de que cada suspiro fosse o último. Mas um raio vívido de amor e de esperança descia ao peito do jovem toda vez que maus pensamentos pairavam no ar, e ele reacendia a chama que o mantinha erguido: a fé inabalável de que o futuro reservaria boas surpresas.
No dia do seu aniversário de dezoito anos, Felipe, vizinho e melhor amigo de Cláudio, foi assassinado. Felipe era envolvido com drogas, assim como muitos outros moradores daquela favela carioca; e acabou pagando uma dívida com a própria vida.
Numa tentativa desesperada de fazer justiça, Cláudio denunciou os assassinos e todo o sistema corrupto que lhes envolvia. Nenhum foi preso, nada aconteceu. Mas Cláudio (este sim!), passou semanas sendo ameaçado.
No dia 31/11/2010, três homens desceram de um carro. Três tiros. Dois na cabeça, um no peito. Todos os sonhos, todos os bons sentimentos, todas as boas ações... Tudo acabado.
Cláudio morreu.

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