segunda-feira, 6 de junho de 2011
E aos poucos, a menina vai dando lugar à mulher. A mamadeira está perdida pela casa, já em desuso, assim como a chupeta, que fora jogada no mar. Hoje, aos 14 anos, a Alice não vive mais no "País das Maravilhas"; já desistiu de salvar o mundo sozinha. Descobriu, com o tempo, que não seria possível ser deputada, veterinária, modelo e atriz (não ao mesmo tempo!). Percebeu que para ir à lua não bastava pegar um ônibus. A pequena desinibida e sem papas na língua vai indo embora, e uma pessoa mais tranquila e, quiçá fria vem surgindo. A menina que está a um passo do ensino médio tem de começar a enfrentar seus problemas sozinha, encarar a vida de frente. Só assim é possível viver neste mundo repleto de maldade. Ao mesmo tempo, talvez paradoxalmente, Alice quer curtir a vida. Quebrar a cara não é tão ruim quanto parece! Decepções ensinam... E muito! Agora é o momento de reconhecer os amigos verdadeiros, de se aproximar ainda mais da família. Mas é hora de viver sozinha também! Raciocinar sozinha, agir sozinha; sem se deixar influenciar por mentes rasas, sem se deixar omitir. É hora de viver arduamente o presente. É hora de pensar o futuro. As ideologias mudam, com o tempo, mas algo maior que isso sobrevive, e sempre sobreviverá: a essência.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Primeiro dia de aula. Entra, atrasada, uma menina. Uma menina estranha. Magra demais, branca demais. Cabelo completamente raspado. Sentou-se em seu lugar, sem dizer uma palavra. Todos a observavam. O que ela estava fazendo ali? A professora pediu à garota que se apresentasse. "Como é seu nome? De que escola você veio?". Eu, assim como todos os outros alunos, aguardava ansiosamente uma resposta. O silêncio foi quebrado e a resposta veio, embora mais curta e seca do que desejávamos. "Er... Ma-Marjorie. Meu nome é Marjorie." "E a escola..." "Nenhuma. N-Não vim de escola nenhuma. Não estudei ano passado." "Como assim?" "Não estudei. Só isso."
Naquele momento, entendi tudo. Ela não passava de uma garotinha rebelde. Do tipo que se recusa a ir à escola e raspa o cabelo para chamar a atenção dos pais. Odeio esse tipo de gente.
O ano foi passando, e a menina continuava a mesma: Sentava-se na última carteira da última fileira, na sala. Não tinha nenhum amigo. Não fazia questão de se enturmar com ninguém. O cabelo começava, aos poucos, a crescer; no entanto, sua magreza excessiva e sua palidez ainda estavam lá.
No fim do ano, a professora de redação formou duplas para uma atividade que valeria cinco pontos. A turma estava ansiosa para saber quais seriam as duplas. Eu fiquei com Marjorie, a esquisitona. Ah, não! Como isso era possível? Numa turma de 38 alunos, eu caíra logo com aquela menina? Fiz um escândalo. Todos concordaram comigo. "É, professora! Deixa a Marjorie sozinha e bota a Mel com a gente! Por favor!". A professora, desconcertada pela balbúrdia que gerei, chamou a mim e à Marjorie para uma conversa na sala da direção.
A professora, Luísa, me perguntou o que havia de errado com Marjorie. No auge da minha raiva, disparei: "Como assim, professora? Você não vê? Essa menina não tem nada haver comigo! Ela é uma rebeldezinha idiota. Olha pra ela, professora! Olha pra ela! Com esse cabelo esquisito, que tá começando a nascer agora, porque a LOUCA tinha raspado. Tá na cara que ela só quer chamar atenção! Não deve comer nada em casa, e se come, vomita. Magra, esquelética. Estranha. EU NÃO VOU FAZER DUPLA COM ESSA MENINA!"
Marjorie me ouvia calada, e acho que permaneceria assim, se a professora não tivesse cobrado dela uma resposta. "Marjorie, vai ficar calada? Você não tem nada a dizer? Concorda, então, com tudo que sua colega disse?"
Aos poucos, vi os olhos da menina se encherem de lágrimas. Calmamente, Marjorie disse: "Melina, eu tive leucemia. Sempre amei meu cabelo; eu nunca o rasparia por vontade própria. Quanto à minha aparência... Bom, você não sabe como é difícil ter que me olhar no espelho todos os dias, e ver isso. Desculpa se eu te fiz alguma coisa, viu? E professora, eu posso fazer o trabalho sozinha, não tem problema não...".
Marjorie saiu da sala. A professora foi atrás dela. Eu fiquei. Sentada. Pensando.
Naquele momento, entendi tudo. Ela não passava de uma garotinha rebelde. Do tipo que se recusa a ir à escola e raspa o cabelo para chamar a atenção dos pais. Odeio esse tipo de gente.
O ano foi passando, e a menina continuava a mesma: Sentava-se na última carteira da última fileira, na sala. Não tinha nenhum amigo. Não fazia questão de se enturmar com ninguém. O cabelo começava, aos poucos, a crescer; no entanto, sua magreza excessiva e sua palidez ainda estavam lá.
No fim do ano, a professora de redação formou duplas para uma atividade que valeria cinco pontos. A turma estava ansiosa para saber quais seriam as duplas. Eu fiquei com Marjorie, a esquisitona. Ah, não! Como isso era possível? Numa turma de 38 alunos, eu caíra logo com aquela menina? Fiz um escândalo. Todos concordaram comigo. "É, professora! Deixa a Marjorie sozinha e bota a Mel com a gente! Por favor!". A professora, desconcertada pela balbúrdia que gerei, chamou a mim e à Marjorie para uma conversa na sala da direção.
A professora, Luísa, me perguntou o que havia de errado com Marjorie. No auge da minha raiva, disparei: "Como assim, professora? Você não vê? Essa menina não tem nada haver comigo! Ela é uma rebeldezinha idiota. Olha pra ela, professora! Olha pra ela! Com esse cabelo esquisito, que tá começando a nascer agora, porque a LOUCA tinha raspado. Tá na cara que ela só quer chamar atenção! Não deve comer nada em casa, e se come, vomita. Magra, esquelética. Estranha. EU NÃO VOU FAZER DUPLA COM ESSA MENINA!"
Marjorie me ouvia calada, e acho que permaneceria assim, se a professora não tivesse cobrado dela uma resposta. "Marjorie, vai ficar calada? Você não tem nada a dizer? Concorda, então, com tudo que sua colega disse?"
Aos poucos, vi os olhos da menina se encherem de lágrimas. Calmamente, Marjorie disse: "Melina, eu tive leucemia. Sempre amei meu cabelo; eu nunca o rasparia por vontade própria. Quanto à minha aparência... Bom, você não sabe como é difícil ter que me olhar no espelho todos os dias, e ver isso. Desculpa se eu te fiz alguma coisa, viu? E professora, eu posso fazer o trabalho sozinha, não tem problema não...".
Marjorie saiu da sala. A professora foi atrás dela. Eu fiquei. Sentada. Pensando.
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