sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Em terra de menino de rua, o último a dormir apaga a lua.

Sozinho desde que se entendia por gente, Gabriel era só mais um moleque do Brasil. Negro. Criança. Sem pai, sem mãe, sem irmãos, sem motivos pra sorrir. Mas o menino tinha um diferencial: Nessa vida, onde cada dia a mais é uma vitória imensa, Gabriel, o menino com nome de anjo, era puro, inocente. Ele acreditava na bondade humana. Era amigo de todos, era amado por todos. O Risadinha, como era conhecido nas ruas, distribuía afeto por onde passava. Apesar de todas as adversidades, ele era feliz. Não tinha inimigos, não tinha desavenças; brincava com a meninada, cuidava dos mais novos, era o xodó dos mais velhos. Não se drogou, não se prostituiu. Trabalhava vendendo balas nas sinaleiras, aprendeu a conviver com os vidros de carros sendo fechados na sua cara, todos os dias, sem excessão.
Mas Gabriel cresceu. Um dia, três adolescentes (brancos, ricos, estudantes de escolas caras), por mera diversão, espancaram-no. A polícia foi chamada, e o trio-terror alegou que Risadinha havia tentado assaltá-los. O rapaz, que havia acabado de atingir a maioridade, foi preso. Na cadeia, mais uma vez, apanhou, pelas mãos de policiais. Numa tentativa desesperada de fugir da imundice da cela escura, Gabriel aproveitou o tal "banho de sol" para pular o muro que o separava da sua casa: o mundo livre. Foi perseguido. A pureza, a inocência, e a crença na humanidade ainda estavam vivas dentro de Risadinha, mas a essa altura, ele já compreendia que nem todo mundo é bom.
Gabriel recebeu dois tiros na cabeça e um no peito. Alguém chamou a ambulância e Risadinha esperou três horas na fila, para receber atendimento. Ninguém teve notícias dele, nunca mais. Às cinco da manhã, o sol nasceu, e o anjo Gabriel voltou pro céu.
É que em terra de menino de rua, o último a dormir apaga a lua.

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